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A carta e o fantasma

Ana Andreiolo 

2025

Palavras-chave: Carta; Fantasmagoria; Escrita.

Imagem 1: fragmento de letra, ampliado digitalmente, retirado de carta psicografada. Fonte: A autora, 2020.

A faculdade de se comunicar com os invisíveis, 

de manter um laço constante com os finados, 

de cuidar, de curar, não era uma graça superior 

a inspirar respeito, admiração e gratidão?

 

CONDÉ, Maryse

 

Assim, como quem recebe uma mensagem do além, abri o envelope A4 pardo contendo três folhas soltas, escritas a lápis, frente e verso, cada uma protegida por plástico transparente e cobertas por letras firmes, largas, extensas e cheias de propriedade e rapidez. Apesar de repreendida pelo plástico protetor, concebi a mim o direito de tocá-la, e impregná-la também com minhas digitais.

Em minhas mãos, a carta repousa como matéria visível e palpável. Suas folhas, se um dia foram brancas, agora são amareladas e manchadas. O tempo notoriamente passou por ela. Provavelmente foi guardada dobrada, por apresentar uma linha clara de vinco. Há também a marca enferrujada de clipes de metal em quatro pontos das folhas, dando a entender que preservaram a integridade do conjunto e da ordenação das páginas por um longo período. Suas margens são mais escuras e são perceptíveis as irregularidades em um lado da borda de cada folha, como se tivessem sido arrancadas de um caderno. Não há pautas, a escrita é livre, solta, letras bem articuladas e frases alinhadas por linhas imaginárias. Não deixa dúvidas que é uma caligrafia de quem domina a escrita e tinha ali muita pressa. 

Lembrou-me os ditados, em que corremos para acompanhar a fala e não perder nenhuma palavra pelo caminho. Os traços das letras “t” e acentos, por exemplo, são breves. O que assombrava sua autoria parecia ser o correr do tempo, que desvirginou o gesto da escrita e cobriu a superfície do papel com sua pele e rastros. Desta maneira, corrida, transfigurou-se para o visível: a carta, o gesto demarcado e o fantasma. A trindade organizada em unidade.

Uma carta encarna a presença e o gesto de um fantasma que deseja ser visto. Ela carrega anima e dispõe a relação do visível e do invisível sem desprezar a matéria que a constitui. Oferece exposição ao despercebido e memória ao esquecimento. Entretanto, o fantasma que nela habita, não se preenche de letras e gestos, ele se mantém preservado em seu segredo, ainda que inscrito na fisicalidade da carta.

Nesta manifestação a relação é um empréstimo de corpos, capaz de manter a alteridade de existências ambíguas. Como objeto de memória, incorpora a presença de uma ausência e descreve em si o velado e o ocultado, sendo também figura de linguagem do animismo e da personificação. Tem, a carta em si, uma anima indivisível do autor-fantasma. Suas bordas demarcam dois mundos, linhas gráficas que relacionam as dimensões espaciais e temporais. A grafia das linhas que a traçam desenha espaços demarcados e delimitados, como pequenas feridas na sua pele ou fissuras feitas pelo grafite no papel, que alteram sua forma, corrompem sua matéria e inserem nova substância residual. Ainda assim, o fantasma permanece livre e não se aprisiona nas delimitações da carne e das linhas. O ícone gráfico está para além da imagem visual e do inanimado, o objeto contém o fantasma sem que ele esteja ali contido. 

Como um desenhista antecede a visão, a autoria também é a vidência traçante do imaginário.

As linhas giradas se contorcem e distorcem por toda a carta, desenhando letras e descrevendo uma imagem em anotações visuais. Toda amplitude corporal, manual e gestual estão ali residuais e registradas. Como uma lente fotográfica faz ao capturar uma imagem mecanicamente e estabilizando o movimento, a imagem do ato da escrita está impregnada nas marcas depositadas. A imagem da carta é, portanto, este espaço imaginário e a facticidade deste ato, ela é a condensação do tempo ao instante do seu acontecimento.

O pouso sobre a carta fez sua autoria fantasma deixar de ser espectro, mas ainda assim sê-lo.

Imaginar o acontecimento é também retornar ao espectral. A carta manipula o tempo para que a imaginação possa amplificá-lo. Através dela acontece o entrelace do espaço ao tempo emanando a aura do ato.

A vulnerabilidade à longa exposição da temporalidade aumentou o contraste do branco do papel às áreas preenchidas pelo grafite. A luminosidade do branco permite realçar o escuro das palavras e o imaginário. A modulação do tempo revela a sua própria exposição, que momentaneamente revelou o fantasma, mas também o  esconde nas invisibilidades orgânicas dos restos do seu corpo, digitais e manualidades impregnadas na superfície do papel. A aparição, por negação e contraste, expõe a pose e o pouso retido na duração do instante do gesto da palavra inscrita. A expectativa é uma questão do tempo transformada em questão de visibilidade, por assim dizer, exposição e revelação falam sobre o tempo, um tempo compulsório, onde o sintoma é aparecer e desaparecer, de expor-se a ele até que se revele. Assim, se torna visível um espectro.

Na planície branca do papel, todas as cores foram refletidas até que certas partes passaram a ser cobertas por pigmento escuro revelado por sulcos contrastantes de exposição de duração incomensurável.

Gestualizar a palavra é performar e produzir uma ação impulsiva da linguagem corporal que pretende ir além do pictórico para a manifestação de uma dimensão espiritual através do corpo.

A carta se apresenta como um tipo de caligrama, contudo, também deixa de sê-lo. Carrega em si a forma e o intuito de representar algo do reino do irrepresentável, utiliza o recurso caligráfico como representação figurativa de uma forma não objetiva e se torna uma espécie de poesia visual, que distribui a propriedade plástica de seus elementos com firmeza e vigor nítidos, acrescida da abstração de sua própria materialidade.

O confronto entre a formalidade da caligrafia com a dimensão subjetiva da espacialidade, distribui formas transgressoras que ultrapassam um subentendido padrão de pautas, e seu número de folhas representa a liberdade do esgotamento do gesto e libertação do imaginário.

A ação revela a potência do ato criativo, que consistiu na matéria com qualidades primárias visuais, olfativas e táteis, preenchendo a conformidade de um espaço, essencial para sua materialização: a ocupação de um corpo.

Ler esse plano encoberto me requisitou abandonar a palavra que descreve o mundo visível, pois a carta é alguma coisa a mais do que o texto ali inserido. Nela, habita algo não dito. No silenciamento do texto, o silenciado aparece.

Para descobrir o fantasma por trás da palavra é preciso tratá-la como imagem, esgarça-la até que suas letras, ampliadas digitalmente, estourem, dissolvam e desapareçam, reaparecendo desfocadas e disformes. Uma vez transmutada de sua significação, esse algo outro se torna visível. Aproximar-se das hastes e curvas das letras, esticá-las ao máximo, até que seus traços sejam abandonados pela forma e se esvaziem. Falar da palavra sem ela.

Alterar a matéria para desintegrar e pulverizar o verbo para que outros significados possam aparecer em associações mais livres e soltas. Neste rito de passagem do linguístico para o não-verbal e vice-versa, residem sensações mínimas que passeiam em degradê tonal pela interseção que apela aos sentidos a buscarem a significação ausente.

Descolar de significado é deixar a palavra turva como uma mancha. Assim, a palavra formal e a mancha disforme coabitam o mesmo sistema: as linhas nítidas de cada letra e os borrões espectrais são a produção do mesmo gesto.

A distorção, neste caso advinda da amplitude visual, é a vontade de trazer mais para perto, o desejo de borrar as barreiras entre o presente e o passado, entre o leitor e o fantasma autor.

Fazer surgir do contorno, manchas de cor, sensações tonais e dissolver o sistema da razão e então, sublimar a mancha. Fazê-la transpassar de um estado a outro, transferi-la a quente, pelo calor, torná-la vapor. Neste estado vaporoso, manchar sorrateiramente para penetrar a trama de um tecido, uma veste para enfim, vestir-se de palavra-fantasma.



Ana Andreiolo é mestre em artes visuais pelo Instituto de Artes da UERJ. Sua proposta de prática e pesquisa artística desdobra experiências efêmeras, fantasmagorias, fabulações e fenômenos enigmáticos, desvelando possíveis índices de mundos invisíveis e ocultados. Site: <www.anaandreiolo.com/visualarts>.


Bibliografia

COCCIA, Emanuele. A vida sensível. Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2010.

CONDÉ, Maryse. Eu, Tituba, Bruxa Negra de Salem. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos, 2019.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A Pintura Encarnada: seguido de A Obra-Prima Desconhecida de Honoré de Balzac. 1˚ Ed. São Paulo: Editora FAP-UNIFESP, Editora Escuta Ltda., 2012.

DIDI-HUBERMAN, Georges. O Gesto Fantasma. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.

GIL, José. A Imagem nua e as pequenas percepções: Estética e Metafenomenologia. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1996.

LAPOUJADE, David. Existências Mínimas. N-1 Edições, 2017.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.