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A costela-de-Adão

Ariane Venturini dos Santos

2023

Palavras-chave: memória; esquecimento; trabalho.

Saí de casa às treze horas, como de costume. Cruzei dois quarteirões à frente, quando passou por mim uma senhora de vestido e cachecol cinza, com sapatos alpargatas e cabelos grisalhos, por volta dos setenta e poucos anos. Ela me olhou de relance, acenou brevemente com a cabeça e virou a esquina. Dei meia volta e segui-a. A senhora entrou em uma casa que dava com a porta para a rua. A porta era azul desbotada em madeira velha, com uma janelinha de vidro, estava trincada. Ao lado da porta havia uma campainha. Apertei. A senhora apareceu no vitral da janelinha, tinha os olhos escuros arregalados, acenou novamente como quem diz “sabia que viria”. Então abri a porta e entrei. A casa cheirava a papel velho e desinfetante barato. Havia um sofá azul ao centro da sala com alguns rasgos no assento. Ao lado, duas poltronas com assento cor de creme e pés de madeira marrom. No centro da sala, uma mesinha de madeira escura, e no canto um vaso de costela de adão, próximo à porta. Três estantes com livros e papéis impressos, alguns quadros com fotografias de pessoas reunidas em ruas movimentadas e pequenas pinturas simples. Servi-me de café e bolachas murchas de maisena. Sentei-me na poltrona em silêncio, encarando aquela senhora. Então ela levantou-se, indicando com a cabeça para que eu a acompanhasse. Passamos pela cozinha, havia uma mesa retangular de madeira ao centro, com quatro cadeiras. Sobre a mesa, uma toalha rendada oval e uma cesta de frutas de plástico. Os armários eram de ferro marrom e as paredes cheias de panelas e utensílios pendurados. Na pia, o coador de café recém-feito, ainda exalando o aroma típico. A torneira pingava. Passamos por um pequeno corredor e a senhora apontava com o indicador algumas imagens penduradas na parede. Assenti com a cabeça e o sorriso curto. Entramos em um quarto empoeirado, cheio de caixas de sapatos com documentos, álbuns, discos e CDs. Havia uma cama de solteiro e um guarda-roupa. A senhora abriu um dos álbuns de fotografias. 

Lá estava eu, com meus vinte e poucos anos, ao lado daquela senhora, também mais jovem, sorriamos. Estávamos em frente a porta desta casa, meus irmãos mais novos, minha mãe, alguns amigos do trabalho e eu sentados na calçada. Estávamos em greve na fábrica. Minha mãe trabalhava conosco na linha de produção. 

A senhora apontava com o dedo para a foto, reconhecendo-me. 

─ Sim mãe, sou eu.

Ela não entendia, não sabia quem eu era. Algumas lembranças profundas emergiam subitamente. Minha mãe ficou debilitada da memória por vários anos, antes de partir. Costumava visitá-la todos os dias, mostrando-lhe as antigas fotos, contando-lhe histórias do passado, e tudo o que ela fez por nós e pelos outros naquela época. A fábrica ainda existe hoje, mas muita coisa mudou.

─ Quem? ─ Ela perguntava. 

─ Seu filho. ─ Apontei para as fotografias. 

Seus dedos trêmulos folheavam as páginas dos álbuns, enquanto eu encaixotava os objetos, discos e documentos e retirava as roupas dos cabides, deixei-a lá em meu pensamento com o álbum de fotos aberto. Voltei para a cozinha, lavei o coador, o bule e a xícara que havia usado. 

─ Preciso consertar esta pia. ─ Murmurei. 

Então embrulhei xícara por xícara, prato por prato, retirei todas as panelas da parede, coloquei tudo que era pequeno em caixas de papelão e passei fita para fechar. Na sala, esvaziei a estante de livros, colocando-os nas caixas, assim como os quadros e pinturas. Sobraram apenas os objetos maiores, o sofá, as poltronas, as estantes, agora tudo vazio. Voltei ao quarto, sobre a cama, estavam as caixas com fotos e o álbum aberto, como deixei. Deixei de lado os devaneios e lembranças. Agora só faltava encaixotar as fotos. Então o fiz. Por fim, peguei o vaso de costela-de-adão, segurando-o sob o braço. Amanhã o caminhão vai buscar tudo. Falei comigo mesmo. Dei uma última olhada na casa, saí, peguei o molho de chaves no bolso do meu casaco e tranquei aquela porta azul.

 

Ariane Venturini é artista visual e estudante de filosofia pela Unicamp.