Da máquina à música: outras metáforas para o cérebro
Daniela Feriani
2026
Legenda da imagem: Colagem manual com exames de ressonância magnética e recortes de revista.
O que nos inspira hoje não são os computadores, é a microbiologia do cérebro: este se apresenta como um rizoma, mais como a grama do que como a árvore (…) Não que pensemos conforme o conhecimento que temos do cérebro, mas todo novo pensamento traça ao vivo no cérebro sulcos desconhecidos, torce-o, dobra-o, fende-o. (…) o cérebro é precisamente esse limite de um movimento contínuo reversível entre um Dentro e um Fora, esta membrana entre os dois. (…) Subjetivação, acontecimento ou cérebro, parece-me que é um pouco a mesma coisa (Deleuze, 1992: 191).
As metáforas têm desempenhado, há muito tempo, múltiplos papéis na conceitualização da mente e do cérebro, orientando o desenvolvimento e o aprimoramento de modelos teóricos e questões empíricas. Analogias iniciais (comparando o cérebro a sistemas hidráulicos, centrais telefônicas, fábricas ou bibliotecas) ofereciam atalhos para a compreensão de aspectos da cognição, da memória e da dinâmica cerebral. Como tal, as metáforas desempenham um papel fundamental na orientação de investigações científicas.
Se o cérebro já foi comparado a uma máquina ou a um computador, um grupo de neurocientistas propõe a música como uma metáfora científica para a compreensão de múltiplas dinâmicas cerebrais e funções cognitivas. Ao contrário de metáforas que se concentram em componentes estáticos ou fluxos lineares, a música enfatiza a adaptação contínua, a dependência do contexto e a inserção cultural, e apresenta um modelo para o engajamento simultâneo com múltiplas camadas de significado. Integrando técnicas analíticas da teoria musical e insights experienciais da performance e da audição, a aposta é aprofundar nossa compreensão da dinâmica da mente e do cérebro e fornecer novos caminhos epistemológicos para a pesquisa interdisciplinar.
A música possui uma estrutura hierárquica, complexidade temporal e capacidade de integrar múltiplos processos que são paralelos a características-chave da arquitetura cerebral e das funções cognitivas. Com base em pesquisas sobre oscilações neurais, plasticidade, codificação preditiva e processamento emocional, os neurocientistas mostram como o paradigma musical pode capturar a rica interligação entre mente e cérebro, desde a dinâmica cerebral em larga escala e as trajetórias de desenvolvimento até a emergência da consciência e a interação de estados afetivos.
Se antes o cérebro era pensado como autônomo em relação ao resto do corpo, tem se mostrado cada vez mais articulado. Para o sociólogo britânico Nikolas Rose (2001), a psiquiatria adotar cada vez mais um modelo biológico ou cerebral para diagnosticar doenças mentais implica numa reformulação da própria noção de biologia – não mais como um destino inexorável e imutável, mas cada vez mais sendo pensada na sua relação com o ambiente. A vida biológica – incluindo, aqui, a influência da genética – entra no campo da escolha e decisão: tornamo-nos cidadãos biológicos e se exige cada vez mais que conhecemos o que acontece em nosso próprio corpo numa linguagem neuroquímica. O ambiente – trauma, abuso, pobreza etc – é levado em conta quando pode ser visto em termos cerebrais, quando as lesões – ou os sintomas – podem ser localizadas.
Se a plasticidade do cérebro pode ser atraente, já que nos convidaria a estimulá-lo e ultrapassar limites, ampliando nossas habilidades e conhecimentos, ela também pode ser perigosa ao se acreditar que o cérebro pode ser reprogramado para qualquer coisa, de tudo ser mutável, dos neurônios serem responsáveis por tudo o que fazemos, da equivalência, enfim, entre cérebro e mente (“somos um cérebro”). Ainda que o cérebro seja moldado pelas experiências que temos ao longo da vida, Nikolas Rose adverte que não devemos imediatamente achar que é possível fazer o que quisermos com ele, que podemos nos tornar o que quisermos se o moldarmos de maneira correta. Como mostra a psicanálise, nem tudo é consciente: há sempre o imponderável, o imprevisível, o que foge do nosso controle.
Alguns processos neurológicos-mentais-cognitivos, como algumas deficiências, deslocam posições, torcem palavras e coisas, sacodem convenções, instauram outras normas, abrindo novas perspectivas para pensar linguagem, corpo, pessoa, mente, cérebro e mundo. É preciso suspender temporariamente as teorias sobre mente, humano, linguagem, deficiência para experimentar algo menos claro e mais fabuloso a partir das pistas das experiências de vida das próprias pessoas, aprender com elas a reinventar os referenciais, tanto de mundo quanto dos modos de produzir conhecimento.
Ao invés de predefinir um tipo de pensamento e procurar por isso na vida social, o antropólogo italiano Carlo Severi (2020) defende uma abordagem etnográfica do pensamento, ou seja, primeiro considerar as interações e formas de comunicação e só então tentar entender o tipo de pensamento que essas relações mobilizam. Assim, o estudo cultural da cognição deveria se basear não numa tipologia das representações (como intuitiva, contra-intuitiva, aparentemente irracional, etc), mas, mais do que isso, nas condições que influenciam a geração de formas específicas de interações comunicativas. O pensamento não está preso no cérebro e o cérebro não se limita ao dentro, mas é tudo o que e como se faz o diálogo entre dentro e fora, pessoa e mundo, identidade e alteridade.
Como bem alertou o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (2002), não basta dizer que se trata de outro sujeito, mas a questão é mostrar que se trata de um sujeito outro. A pesquisadora e autista Temple Grandin (1996), ao recusar A mente humana em defesa de multiplicidades de mentes e cérebros, nos dá uma pista: é importante “compreender o tipo de pensador que você é”. É possível multiplicar as mentes humanas e multiplicar os tipos de pensador, não na direção dO pensamento humano, mas nos limites do próprio pensamento, continuamente expandidos por pessoas com deficiência, com algum tipo de transtorno mental e outras que mostram os vários mundos, linguagens, pessoas, cérebros e mentes possíveis.
* Este texto é parte de um projeto maior, intitulado “Da intervenção biomédica à intervenção artística: outras linhas para o cérebro”, no qual convidei pessoas neurodivergentes para experimentar e vislumbrar outras perspectivas para o cérebro – e tudo o que cabe e o que não cabe nele. A ideia foi pegar imagens de cérebro que a medicina produz a partir de exames de ressonância magnética, tomografia, eletroencefalograma e fazer intervenções artísticas e/ou literárias nessas imagens. As intervenções eram livres, a critério de cada autor/a: pintar, desenhar, recortar, bordar, escrever, fazer colagem. A provocação foi deslocar o lugar do cérebro de objeto de estudo e intervenção biomédica para o lugar do cérebro como espaço de arte, de criação, de diversidade, da diferença como o que nos permite conhecer a nós próprios e os outros, e fazer com que o encontro aconteça de maneira plena, com todas as lacunas, fissuras, rasuras que possa ter. Ana Cândida Nunes, Fernando Murilo Bonato, Jailton Veloso, Edilberto Silva e Pedro de Lucena responderam à provocação lançada. Os materiais podem ser vistos na coluna Entre mundos, na revista ClimaCom [disponível online].
Referências bibliográficas:
DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 1992.
GRANDIN, T. Emergence: Labeled Autistic – A true story. Nova York: Warner Books, 1996.
ROSE, Nikolas. The politics of life itself. Theory, culture & society; 18(6):1-30, 2001.
SEVERI, Carlo. Capturing imagination: a proposal for an Anthropology of thought. Chicago: Hau Books, 2020.
VIVEIROS DE CASTRO, E. O nativo relativo. Mana, v. 8, n. 1, p. 113-148, 2002.