Traços | Ruídos | Sombras

Por onde Estão?

Francisca Raquel de Oliveira Temoteo

2025

Um dos grandes grupos estudados nas ciências sociais, sem dúvida, são grupos marginalizados, compostos por pessoas em situação de rua, moradores de favelas, periferias, comunidades, em diferentes contextos e tempos. O pano de fundo são as mudanças socioespaciais das cidades, direito à habitação, mobilização política, gênero, ilícitos, políticas públicas, entre outros assuntos que atravessam os corpos desses sujeitos. Através desse olhar, o presente ensaio fotográfico tem o intuito de questionar os lugares e as condições de vida dessas pessoas em Brasília, que representa a sede administrativa do país e a capital dos Poderes da República. Perto desse núcleo de decisões políticas, existe uma população desamparada, abandonada. Assim, delimitam-se as cenas ao Plano Piloto. Emprega-se uma técnica de sobreposição de desenhos em fotos (a proporção entre as figuras é deixada de lado), utilizada aqui para preservar a identidade desses moradores. Inclusive, seus nomes são fictícios, mas as histórias são reais. 

Este ensaio envolve a antropologia visual (desenho e fotografia), com o intuito de questionar os lugares e as condições de vida das Pessoas em Situação de Rua (PSR) na capital do país, Brasília. Realizado em 2025, o registro percorre o Plano Piloto, local de maior fluxo de pessoas, automóveis e eventos culturais e políticos. Em meio a estas movimentações, os barracos se destacam timidamente – se levarmos em comparação com outras metrópoles brasileiras, em que essas estruturas estão em grande número e ocupando diversos ambientes, como praças, rodoviárias, avenidas, ruas quase que inteiras. Em Brasília, estão em menor número, ocupam locais estratégicos, canteiros em frente a supermercados, igrejas e bancos. Algumas pessoas sem barracos dormem debaixo de árvores e na Rodoviária do Plano Piloto. Através disso, é possível observar questões relacionadas a habitação, formas de conseguir algum dinheiro, alimentação, água, e o sentimento deles/as em relação aos moradores das Superquadras. A metodologia utilizada emprega a observação dos espaços, conversas com a população, fotografias via iphone 6s – material mais simples para não causar desconforto maior para as pessoas – e desenhos realizados no local como forma de aproximação, além de auxiliar na preservação das identidades dos moradores. O resultado obtido, para além do ensaio, foi uma aproximação e momentos de escuta com essas pessoas, que, por alguns relatos, questionam as ações do GDF em tirá-los dos locais sem apresentar soluções cabíveis de transformação para com eles/as. As principais referências foram a antropóloga Karina Kuschnir (2012), que aborda o fazer a cidade viva via desenhos; o trabalho do fotógrafo Mauro Sampaio em seu recente ensaio sobre a população de rua de algumas capitais brasileiras, destacando a capital do país; para a técnica empregada: Man Ray – um pintor, fotógrafo e cineasta norte-americano; e Ben Heine, um artista visual e músico belga, conhecido principalmente por sua inovadora técnica artística chamada “Pencil vs Camera” (Lápis vs Câmera). Assim, entre concreto e lona, a cidade revela não só suas formas, mas quem pode chamá-la de lar.

Palavras-chave: Antropologia Visual; Brasília; Pessoas em Situação de Rua.

Imagem 1 – Paulo, 28 anos, instalou seu barraco há menos de uma semana no estacionamento da creche da CNEC. Sem um local fixo para viver, já precisou montar e desmontar sua moradia em diferentes lugares, evidenciando a precariedade e a constante incerteza enfrentada por aqueles em situação de moradia irregular. Esse ciclo de deslocamentos forçados reflete a falta de políticas habitacionais inclusivas e o apagamento das necessidades dos que vivem à margem das cidades.

Imagem 2 – Ao redor da Rodoviária do Plano Piloto, Markino, como tantos outros em situação de rua sem barraco, buscava na sombra de uma árvore uma dormida.

Imagem 3 – Rubens, de 28 anos, mora nos fundos da Escola Modelo de Língua Japonesa. A dormida fora dos barracos durante o dia ajuda a enfrentar o calor. O uso de materiais como o plástico (lona) auxilia mais durante a noite, para enfrentar o frio.

Imagem 4 – Uma comunidade onde os moradores criam galinhas para subsistência. Dona Clara, de 40 anos, teme que os animais sejam roubados e atropelados, revelando um problema maior: a precariedade dessas comunidades, que precisam conciliar a sobrevivência com a falta de segurança e infraestrutura adequada. 

Imagem 5 – João Pedro, de 32 anos, mora em barracos desde jovem. Uma das dificuldades encontradas é a montagem da cozinha, que normalmente acontece fora do barraco, devido à falta de espaço e o risco de incêndio. 

Imagem 6 – Raimundo, de 64 anos, mora sozinho no barraco há muito tempo, como conta. Correu para retirar a roupa estendida, um gesto que evidencia a precariedade de quem vive sem estrutura adequada para se proteger das mudanças do clima.

Imagem 7 – Fernando e sua esposa Andressa, entre idas e vindas das ações causadas pelo GDF, moram há mais de 2 anos no canteiro. Uma das principais dificuldades encontradas é ter água potável para consumo, banho e preparo dos alimentos.

Imagem 8 – O local é ocupado por alguns moradores em situação de rua, apenas a família de Ana e Ronaldo, com suas filhas, Maria e Vitória, vivem em um barraco. A alimentação é fruto de doações, arrecadadas no local e em outras ruas. 

Imagem 9 – Claudio e Gabi moram no canteiro há cerca de 2 anos. O principal sustento é a venda de materiais recicláveis, que recolhem pelas ruas.

Imagem 10 – Dona Fátima, de 63 anos, está temporariamente no local, diz que, em meados de dezembro/2024, os moradores foram retirados pelo GDF, mas, agora, em fevereiro, estão retornando. Em meio a preparação para o almoço, conta ainda que ninguém do prédio residencial é solidário a eles. Somente tiram fotos e os filmam.

Referências

DEPARTAMENTO DE PESQUISA E CULTURA ABRA. Man Ray: um dos maiores defensores da fotografia como arte. Academia Brasileira de Artes (ABRA). Disponível em: https://abra.com.br/artigos/man-ray-um-dos-maiores-defensores-da-fotografia-como-arte/. Acesso em: 10 de fev. 2025

KUSCHNIR, Karina. Desenhando Cidades. Revista de Sociologia & Antropologia, 2012.

MAURO, Sampaio. Abandono. 2020. Edição Piauí. Editora: Nova Aliança, ISBN / ISSN Ano 2020, 104 p.

PAULINO, Roseli. Ben Heine: biografia e obra. ARTE E ARTISTAS. Disponível em: https://arteeartistas.com.br/ben-heine/. Acesso em: 10 de fev. 2025.