Ser-tão fértil: a caatinga como criação
Carla Carneiro de Camargo
Vanda Aparecida da Silva
2026
Meu primeiro workshop fotográfico foi no interior do Piauí. Não sabia ao certo o que iria e quem iria encontrar, era a minha primeira vez neste estado. E foi a primeira de muitas que se sucederam desde então. Estar num ambiente pela primeira vez é apaixonante, ficamos em alerta a todo movimento que nos aparecesse, curiosas a qualquer um que se apresentasse.
O primeiro impacto é a aspereza, a superfície é rígida, seca. Quando tocada, sinto certa fragilidade. O sol ardente sob nossas cabeças, o solo esfarelado, como podem os frutos? Como pode essa gente?
A imagem se desdobra em pedaços com excesso de luz e, mesmo assim, ela nos dá pistas do tanto de vida que há ali. Apesar de ser um dos biomas mais esquecidos do Brasil (SILVA et al., 2017; TABARELLI et al., 2018; LEAL et al., 2005), a Caatinga é habitada, é vivida e experimentada. O que monta o sertão?
A fotoetnografia entra, aqui, como uma ferramenta de aproximação, ela nos auxilia na montagem de diálogos, nos coloca entre a imagem e a história. A fotografia preenche a lacuna da distância, como aponta Sylvia Caiuby Novaes (2008), “a imagem torna presente qualquer coisa ausente”. Aquilo que não é da ordem apenas do texto, mas é também da ordem do visto, a representação de algo em imagem. A fotografia promove narrativas de trajetórias que se criam na imagem, oferecendo, nelas, representações (NOVAES, 2008). Assim, a imagem da caatinga narra sozinha sua própria trajetória.
Aqui, o bioma se apresenta com um tanto para dizer e ainda mais para se ver. Logo, por que não pôr a Caatinga em relevo? Por que não falar das pessoas que ali vivem, dos sujeitos que criam e foram criados nesta terra? Em que momento a Caatinga se transforma em gente ou a gente se transforma em Caatinga?
Referências Bibliográficas
SILVA, L. R. M. da; BARBOSA, H. A.; SANTOS, A. M. dos. Variabilidade e tendência espaço-temporal da Caatinga relacionadas com a degradação ambiental no semiárido brasileiro. Revista Brasileira de Geografia Física, v. 17, n. 2, p. 804–823, 2024. DOI: https://doi.org/10.26848/rbgf.v17.2.p804-823.
NOVAES, S. C.. Imagem, magia e imaginação: desafios ao texto antropológico. Mana: Estudos de Antropologia Social, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 455–475, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/mana/a/jGbgpVMwvRTfyvVSXV4Vqmt/?lang=pt.
LEAL, I. R.; TABARELLI, M.; SILVA, J. M. C. Ecologia e conservação da Caatinga. Recife: Editora Universitária UFPE, 2005.