Vislumbres | Traços| Conexão

TRÂNSITOS E AFETOS NA CIDADE: A COMERCIALIZAÇÃO DO AXÉ E A RELACIONALIDADE DAS COISAS SAGRADAS

Luiz Fernando de Assunção Corrêa

2026

A coisa, todavia, não é só um fio, 

mas um certo agregar de fios da vida

(Ingold, 2012, p. 38).

O ensaio propõe uma perspectiva de experimentação visual, pois socializa um circuito que é realizado frequentemente por pessoas afro-religiosas no centro de Belém (PA), e arreadores comerciais, com motivação na compra de diversos objetos e símbolos que são úteis às vivências afros, conformando performance e estética em torno das religiões afro-amazônicas belenenses. Por esse motivo, longe de fazer uma conexão linear, as imagens dispostas têm a intenção em demonstrar o circuito socializante (Magnani, 1992) que ocorre entre pessoas do axé e vida na cidade, tendo em vista a cotidianidade litúrgica dos terreiros que se mostra como ponto chave para refletir rotas “ocultas” que carregam altos graus de envolvimento e trajetórias espirituais que estão fundamentadas na subjetividade e sob contexto místico.

As fotos aqui reunidas foram produzidas em momentos distintos entre os anos de 2023 e 2024, por ocasião de minhas andanças e compras de itens afro-religiosos. Elas retratam uma parte do centro histórico de Belém (PA), como o Complexo do Ver-O-Peso (mercado público), constituído por numerosas seções comerciais, em especial as lojas de axé e vendas de ervas, banhos e defumações, tendo a feira com alta circulação, formação e acesso por pessoas negras (Silva, 2007; Melo, 2025), e o Comércio (com vendas diversificadas), ambos espaços públicos agem da mesma maneira porque mercantilizam, em barracas/lojas de axé, todo tipo de material natural e/ou artesanal, que são úteis aos terreiros amazônicos da cidade.

Tais localidades promovem intercâmbios comerciais com intensa movimentação e público heterogêneo, representando alguns de tantos caminhos onde o povo de santo de Belém comumente acessam artigos religiosos, como velas de todos os tipos, tamanhos e cores, ervas frescas ou desidratadas, favas e sementes, essências e elementos para banhos, alguidares, esteiras de palha, miçangas e contas para os rosários e muitos outros símbolos que contém significados fundamentais à religião afro. Considerando isso, adquirir objetos e produtos religiosos de toda variedade faze parte de um percurso traçado de forma individual, mas intrinsicamente conectada ao pertencimento ao axé.

Dialogando com esse sentido sociorreligioso, aqui, as imagens (ambientes, objetos, símbolos e materiais) serão analisadas como coisas, pois “o mundo em que habitamos é composto não por objetos, mais por coisas” (Ingold, 2012), onde as coisas não se limitam a inércia, nem somente é lida por sua finalidade finita ou “existem” através da agência humana. Esta perspectiva enfatiza, portanto, a complexidade dos processos interligados, não se reduzindo em limitações materiais somente. Ademais, as fotos conduzem-nos a uma malha de significados (Ingold, 2012) que estão de acordo com a subjetividade e vivência do axé e as relacionalidades produzidas entre as possibilidades de compartilhamento e envolvimento mútuo com comerciantes (humanos) e forças energéticas (energias sagradas), por exemplo.

Diante deste cenário, as conexões tecidas fluem vitalidades potentes e ricas ao perceber os símbolos religiosos (ou as coisas religiosas) em vários espaços que expressam a devoção afro-brasileira, seja através de Santos, no que tange ao sincretismo, Orixás, Encantados e Entidades presentes nas materialidades e nas negociações feitas nos locais que trazem a essência afro centrada religiosamente, formulando um trajeto de alto grau afetivo e relacional, condicionando o valor monetário, ao menos à primeira vista, como forma limitante de entendimento de uma aquisição pessoal, mas com intencionalidade sagrada.

Segundo o antropólogo Muniz Sodré (2019), o terreiro se estabelece socialmente enquanto um território que foge da percepção de individualidade, no qual reivindicam e fortalecem laços étnico-raciais de uma identidade afro-brasileira e a harmonia ontológica entre os seres humanos, a natureza e a ancestralidade, conformando territórios vivos que condensam as relações entre seus devotos e uma prática social autêntica e autônoma. Portanto, os terreiros promovem uma sociabilidade integrativa e coletiva, onde os meios de compartilhamento deste grupo quebram a lógica hegemônica capitalista dando espaço à ótica da relacionalidade, não limitante às relações humanas, mas, na mesma medida, com tudo que é sagrado em sua cosmovisão.

Em síntese, a relação entre ser de terreiro também está pautada na conexão entre o espiritual e o social, ambos comungados numa concepção de terreiro-mundo, terreiro físico e terreiro vida, porém não lido como fluxo preso em si mesmo, mas solto, sem barreiras, com distintas vivências e circuitos emaranhados, ou, em outras palavras: “não uma rede de conexões, mas uma malha de linhas entrelaçadas de crescimento e movimento” (Ingold, 2012, p. 27). Isto é, a relacionalidade das coisas pode ser construída em diversos cenários e desenvolve-se num complexo sistema de significações, neste caso: religiosa, desde os templos de culto até as ruas, dos locais até o encontro de pessoas (vendedores e clientes) gerando compartilhamentos diversos entre elementos (vitais) plurais.

REFERÊNCIAS

INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. Horizontes antropológicos, v. 18, p. 25-44, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-71832012000100002. Acesso em: 17 mar. 2026.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. Da periferia ao centro: pedaços & trajetos. Revista de Antropologia, São Paulo, Brasil, v. 35, p. 191–203, 1992. Disponível em: https://revistas.usp.br/ra/article/view/111360. Acesso em: 22 mar. 2026.

MELO, Andrea Silva de. O Ver-o-Peso como complexo de negritude na Amazônia Paraense. Revista Ñanduty, [S. l.], v. 13, n. 21, p. 439–468, 2025. Disponível em: https://ojs.ufgd.edu.br/nanduty/article/view/19632. Acesso em: 22 mar. 2026.

SILVA, Tiago Luís Coelho Vaz. Ver-a-cor: um estudo sobre as relações sociais no mercado do Ver-o-Peso em Belém (PA). 2007. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/89854/246840.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 16 jan. 2026.

SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Mauad Editora Ltda, 2019.